sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sobre nossos atrasos

                                   Para Samuel Medina

Tenho um relógio que atrasa a hora

Da sua vinda
Do nosso reencontro

Pensei em jogá-lo fora
Quando ele despertou me alertando
“Posso ser útil para adiar as despedidas”

Desisti.
Desde então só o consulto
Quando estamos juntos.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Ladrão de Nomes

Estávamos em uma Kombi branca com gente o bastante para ocupar todos os seus bancos, mas só consigo me lembrar de três: eu, meu tio e o “ladrão de nomes”. Aos quatro anos, eu era uma criança pouco comunicativa, chorona e brava – especialmente com quem eu não conhecia - embora estivesse sempre cercada de muita gente. Os amigos de meus pais costumavam passar muito tempo com minha família, em casa ou nas viagens. Aprendi a gostar da companhia deles, eram meus tios do coração. Naquele dia, entretanto, havia um entre eles que ainda era desconhecido para mim. Seu nome era Magela, muito alegre e divertido na opinião dos adultos ali presentes, muito chato e inconveniente na opinião da criança que eu era. Ele tentou conversar comigo e chamar minha atenção utilizando de todo o seu repertório de brincadeiras na tentativa de me fazer sorrir, mas eu não achava graça em nada do que aquele senhor falava e fazia. Não satisfeito e muita sagaz, ele foi cruel ao dar sua cartada final. O senhor desconhecido propôs uma troca de nossos nomes que foi rejeitada por mim rapidamente. Ele insistiu, tomou a decisão e executou a troca como num passe de mágica, antes mesmo que eu pudesse pensar num modo de me proteger. Daquele dia em diante, ele se chamaria Pâmelo e eu Magela. Sim, estava feito. Ele trocou nossos nomes sem o meu consentimento, roubou minha palavra. Era um ladrão de nomes. Eu argumentava enquanto ele dizia não ter mais jeito. Me senti perdida, angustiada, em busca das letrinhas na tentativa de recuperar o nome que o papai me deu.
Em meio aos soluços e lágrimas, imaginei o que seria viver sem ser a Pâmela. Mamãe sempre me dizia que sem o chapeuzinho no “a”, meu nome seria Pamela, com a mesma sonoridade de “panela” e eu nunca me esquecia de dizer isso às pessoas que perguntavam como eu me chamava. Será que o “ladrão de nomes” se lembraria disso? Colocaria o chapeuzinho em seu devido lugar ou o deixaria guardado no armário? Papai me ensinou que Pâmela significa “doce como mel” e embora eu não revelasse minha doçura a todos, aprendi a gostar do meu nome desde a primeira vez que o ouvi e ainda hoje acredito no poder que esta palavra exerce sobre mim.  
Não tendo mais argumentos que convencessem o Sr.Pâmelo, caí em prantos, inconsolável. Era um choro alto, de perda e de luto. O significado de Magela eu desconhecia e nenhum chapeuzinho ele tinha, o que me fazia sentir mais perdida. Em poucos minutos ouvindo o barulho estridente e triste do meu pranto, o ladrão de nomes pediu trégua, declarou-se arrependido por ter cometido ato tão maldoso. Não me convenceu, mas sem questionamentos, estendi as mãos ainda bem pequenas, mas fortes o bastante para segurar meu nome. Ajustei o chapeuzinho que se entortou durante a movimentação súbita daquele furto. Repeti “Pâmela” algumas vezes para verificar se a pronúncia estava correta e guardei a palavra em maior segurança dentro de mim para que ninguém mais a roubasse e eu jamais me esquecesse da Pâmela que sou. Naquele momento, o silêncio tomou conta do local, nem mesmo as risadas dos adultos podiam ser ouvidas. O Sr. Magela pegou de volta seu nome e sorriu aliviado. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

Morada

Quando chegar
entre sem bater na porta.
Quero sua surpresa
seus desavisos em dias comuns.

Quero que me encontre
desprevenida
sem trancas.

Entre, querido
e habite
nesta casa que sou.
Faça dela sua morada.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Jogo de azar

Diga-me,
o que pensa que ganhará neste seu jogo?
É sempre tão previsível, meu bom rapaz.
Sentada diante do tabuleiro,
sou observada por todas as outras competidoras.
Mordo os lábios como quem se concentra
e te encaro como quem deseja o grande prêmio
(você pensa ser o prêmio).
Rio por dentro.

Não seja tão tolo, bonito.

Não quero jogar, não me satisfaz.
Levanto-me sem te desconcentrar,
e me retiro da mesa.
Deixo o espaço vazio para as outras
que esperam ansiosas pela chance delas.

Escrevo um recado no meu lado do tabuleiro:

"Enquanto você não levantar a cabeça,
perdido em suas estratégias tão mal articuladas,
não perceberá, lindo homem,
que a nossa partida terminou
e você perdeu a chance de [me] ganhar.
Não há ganhador quando se joga sozinho...
não há prêmios."

Desejo a você mais azar nos próximo jogos...

e a nós 
toda a sorte no amor, meu bem.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A/C Coração

Prezado Coração,

Você que tomou a decisão
e silenciou minha razão.
Tenha agora a santa paciência de esperar.
A estrada que marca a distância
é a mesma que reaproximará.













domingo, 13 de março de 2016

Das (Im)possibilidades

Não fossem as diferenças e aquelas semelhanças perturbadoras.
... o meu momento e o seu momento ou os dias em que nascemos.
Não fossem os nossos passados e presentes e os pensamentos sobre um possível futuro juntos tão divergentes.
Ou, talvez,  o modo como nossas mãos se entrelaçavam e não queriam mais se soltar, os muitos medos e o desejo.
Se não fosse cada "não" ou "sim" de nossos lábios e esses dois coracões atrapalhados.
... ele e ela que nos marcaram, a Lua, o vento, o horário exato que nos conhecemos.
Se não fôssemos você e eu...

Penso que haveria uma possibilidade de acontecer.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Fotografia

Se eu escrever sobre o amor,
não pense que escrevo sobre nós dois.
Não, querido.
Não há mais o lirismo,
chegou ao fim nossa poesia.

Se eu cantar o amor,
Não pense que é para que me escute.
Não, querido.
Nossas vozes desafinaram,
perderam o tom
da nossa velha canção.

Se eu sorrir quando me olhares,
verás que não é o mesmo sorriso que conhecia.
Aquele sorriso era só seu, aquela mulher era só sua.

Se eu chorar de amor,
Não pense que ainda é por você.
Não confunda, querido.

Já não somos os mesmos daquela fotografia.
Somos outros
e para outros.