terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Grito


As fontes secaram
As chuvas cessaram
Nunca mais se ouviu
sobre os arco-íris
Nos jardins dos homens
as flores murchas
anunciam:
Já não há Sol!
Para onde foram os jardineiros?
E todos os admiradores
das paisagens naturais
Onde estão os ouvintes
desse meu grito?
É o fim?
Apenas o eco me responde:
Fim...
Fim...
Fim

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Café da Manhã

Acorda e por alguns minutos ensaia levantar-se da cama. Quando finalmente se encoraja, sua primeira vontade é de ligar para ele, mas prefere aguardar um pouco, pois sua voz ainda está rouca e ela não quer que ele a escute assim. Lava o rosto, troca de roupa e desce as escadas ansiosa pelo café, mas percebe que foi a primeira da casa a despertar e ainda terá de prepará-lo. Os pães também precisam ser comprados e a caminhada até a padaria a desanima, o que a faz adiar o café matinal, apesar da fome. Ela sente saudades da época em que tudo já estava na mesa quando acordava, mas há muito tempo a vida já exige dela independência. Aos 28 anos, já era tempo de não sentir mais falta das regalias de quando era menina, principalmente pelo fato de já ter morado sozinha. Agora que retornou para a casa do pai, percebe o quanto tudo mudou por ali e só ela que ainda não tinha experimentado essas mudanças. É tempo de encará-las: a ausência diária da mãe, a autonomia das irmãs, as novas posturas do pai frente à vida e até a falta de divisão nos afazeres domésticos. E ela que pensou no ano anterior que não suportaria tudo que estava por vir, hoje sente-se bem, inteira, feliz, embora ainda sinta as dores e as sensações tristes deixadas pelos últimos acontecimentos de sua vida. Sabe bem que assim como as feridas, elas levam tempo para sarar. Em meio às suas reflexões, não percebe que a “mesa do café” foi preparada. Com a caneta na mão, apoiada sobre seu caderno, se põe a escrever, uma prática que deixou de lado por alguns meses e que sempre lhe fez muito bem. Em seguida, faz uma breve interrupção em seu texto e liga para ele, o dono da voz que despertou seu coração de um sono longo e profundo. Escuta as palavras que ele diz como quem degusta uma sobremesa saborosa e desliga sorrindo. Seu café da manhã não poderia ser melhor, feito das palavras que acabara de ouvir e saborear e daquelas que agora escreve para saciar sua fome.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A dor do poeta

 [Para Samuel Medina]

Surpreendem-me aqueles
que dão trégua ao amor.
Quero trégua
apenas dessa dor
que de tão sua
também é minha.
No jardim do poeta
também brotam espinhos
e da dor
ele faz poesia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Temor

Desce a ladeira 
a mulher
que nada teria a temer
não fosse a sombra
na escuridão
perto da árvore.


Desce a ladeira
a mulher
a tremer
tamanho o frio
que lhe causa o temor.

fixa seu olhar na sombra
como quem se impõe
(a despeito do temor)

reconhece-o
e desce a ladeira
em passos mais apressados
a mulher
a temer
um homem.

[Escrevi esse poema há aproximadamente dois meses, em um dia que me senti muito ameaçada por um homem. Hoje o publico em memória de Lucía Pérez e de todas as vítimas de violências praticadas contra as mulheres.]

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Nascimento De Um Poema

[Poema dedicado ao Samuel em nosso aniversário de quarto mês de namoro. Amo te namorar.]


Em uma das mãos
a caneta
A ponta desliza
suavemente
por todo espaço
branco do papel

Na outra mão
o corpo dela
Os dedos deslizam
sobre a pele
arrepiada

Ele a conhece
descreve interpreta traduz
em palavras

Êxtase e gozo
o momento exato
do prazer
entrelaçam as mãos
o poeta e a musa
Se pertencem.

[Pâmela Bastos Machado]

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sobre nossos atrasos

                                   Para Samuel Medina

Tenho um relógio que atrasa a hora

Da sua vinda
Do nosso reencontro

Pensei em jogá-lo fora
Quando ele despertou me alertando
“Posso ser útil para adiar as despedidas”

Desisti.
Desde então só o consulto
Quando estamos juntos.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Ladrão de Nomes

Estávamos em uma Kombi branca com gente o bastante para ocupar todos os seus bancos, mas só consigo me lembrar de três: eu, meu tio e o “ladrão de nomes”. Aos quatro anos, eu era uma criança pouco comunicativa, chorona e brava – especialmente com quem eu não conhecia - embora estivesse sempre cercada de muita gente. Os amigos de meus pais costumavam passar muito tempo com minha família, em casa ou nas viagens. Aprendi a gostar da companhia deles, eram meus tios do coração. Naquele dia, entretanto, havia um entre eles que ainda era desconhecido para mim. Seu nome era Magela, muito alegre e divertido na opinião dos adultos ali presentes, muito chato e inconveniente na opinião da criança que eu era. Ele tentou conversar comigo e chamar minha atenção utilizando de todo o seu repertório de brincadeiras na tentativa de me fazer sorrir, mas eu não achava graça em nada do que aquele senhor falava e fazia. Não satisfeito e muita sagaz, ele foi cruel ao dar sua cartada final. O senhor desconhecido propôs uma troca de nossos nomes que foi rejeitada por mim rapidamente. Ele insistiu, tomou a decisão e executou a troca como num passe de mágica, antes mesmo que eu pudesse pensar num modo de me proteger. Daquele dia em diante, ele se chamaria Pâmelo e eu Magela. Sim, estava feito. Ele trocou nossos nomes sem o meu consentimento, roubou minha palavra. Era um ladrão de nomes. Eu argumentava enquanto ele dizia não ter mais jeito. Me senti perdida, angustiada, em busca das letrinhas na tentativa de recuperar o nome que o papai me deu.
Em meio aos soluços e lágrimas, imaginei o que seria viver sem ser a Pâmela. Mamãe sempre me dizia que sem o chapeuzinho no “a”, meu nome seria Pamela, com a mesma sonoridade de “panela” e eu nunca me esquecia de dizer isso às pessoas que perguntavam como eu me chamava. Será que o “ladrão de nomes” se lembraria disso? Colocaria o chapeuzinho em seu devido lugar ou o deixaria guardado no armário? Papai me ensinou que Pâmela significa “doce como mel” e embora eu não revelasse minha doçura a todos, aprendi a gostar do meu nome desde a primeira vez que o ouvi e ainda hoje acredito no poder que esta palavra exerce sobre mim.  
Não tendo mais argumentos que convencessem o Sr.Pâmelo, caí em prantos, inconsolável. Era um choro alto, de perda e de luto. O significado de Magela eu desconhecia e nenhum chapeuzinho ele tinha, o que me fazia sentir mais perdida. Em poucos minutos ouvindo o barulho estridente e triste do meu pranto, o ladrão de nomes pediu trégua, declarou-se arrependido por ter cometido ato tão maldoso. Não me convenceu, mas sem questionamentos, estendi as mãos ainda bem pequenas, mas fortes o bastante para segurar meu nome. Ajustei o chapeuzinho que se entortou durante a movimentação súbita daquele furto. Repeti “Pâmela” algumas vezes para verificar se a pronúncia estava correta e guardei a palavra em maior segurança dentro de mim para que ninguém mais a roubasse e eu jamais me esquecesse da Pâmela que sou. Naquele momento, o silêncio tomou conta do local, nem mesmo as risadas dos adultos podiam ser ouvidas. O Sr. Magela pegou de volta seu nome e sorriu aliviado.